Está sentado à sombra da figueira, com um café na mão, quando repara nela: uma vespa maior do que as habituais, corpo escuro quase preto, a pairar imóvel junto à entrada da colmeia do vizinho, como se estivesse à espera de alguma coisa. Está. Assim que uma abelha regressa carregada de pólen, o inseto lança-se, agarra-a em pleno voo e afasta-se para uma folha próxima, onde em segundos separa o tórax do resto do corpo e leva apenas essa parte para o ninho. Não é uma cena rara em julho — é, cada vez mais, uma cena comum em quintais de norte a centro de Portugal, e vale a pena saber o que está mesmo a ver.
Chama-se vespa-asiática, ou Vespa velutina, e não é uma vespa europeia maior nem mais agressiva por acaso. É uma espécie exótica invasora, chegada à Europa através do porto de Bordéus, em França, em 2004, e detetada pela primeira vez em Portugal no distrito de Viana do Castelo em 2011. Desde então espalhou-se pela quase totalidade do território continental — está amplamente distribuída, com exceção do Baixo Alentejo e do Algarve, onde a pressão continua, para já, mais baixa. Para quem tem horta, pomar ou apenas duas roseiras no quintal, perceber a diferença entre esta espécie e uma vespa comum não é curiosidade de biólogo: é o primeiro passo para decidir se deve continuar a tomar o café tranquilamente ou se deve tirar o telemóvel do bolso.
Vespa-asiática ou vespa comum? As diferenças que contam
A confusão mais frequente é com a vespa europeia (Vespa crabro), que também é grande e também assusta quem não está à espera. A vespa-asiática distingue-se por um corpo predominantemente preto ou castanho-escuro, com uma faixa larga alaranjada no abdómen e as pontas das patas de um amarelo vivo — quase parece que calçou meias claras. Mede cerca de 2,5 centímetros, um pouco menor do que a vespa europeia, mas o voo é diferente: paira em posição fixa junto às colmeias, num comportamento de caça que a vespa comum não tem. Se a vir a rondar o mesmo ponto durante minutos, sem pousar, está provavelmente a observar vespa-asiática em ação de caça, não uma vespa perdida à procura de doce na mesa do jantar.
Não vale a pena tentar apanhá-la para examinar de perto — nem é preciso. Uma fotografia tirada a alguma distância, com o telemóvel em modo zoom, chega perfeitamente para confirmar a espécie junto dos serviços competentes. Melhor opção: fotografar, recuar devagar e continuar a rega ou o café de onde estava. A vespa-asiática isolada, longe do ninho, raramente ataca sem motivo.
Um ninho que cresce sem se notar
Um ninho que hoje cabe numa bola de basquetebol pode, seis a oito semanas depois, ter o tamanho de um frigorífico pequeno.
É essa a parte mais traiçoeira do ciclo desta espécie. Na primavera, a rainha fundadora constrói sozinha um primeiro ninho, discreto e pequeno. Chama-se ninho embrionário: uma esfera de apenas 5 a 10 centímetros, com uma abertura estreita no fundo. Esconde-se normalmente num beiral, dentro de uma garagem ou no interior de um arbusto denso, onde ninguém repara nele durante semanas. Se esse ninho inicial não for detetado a tempo, a colónia muda-se durante o verão para um segundo ninho, bastante maior. Este ninho secundário é esférico ou em forma de pera, mede entre 60 e 80 centímetros e tem abertura lateral — e, segundo dados do Município do Porto, pode chegar a 1 metro de altura por 80 centímetros de diâmetro. A maior parte destes ninhos, cerca de 73% segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), instala-se no topo de árvores com mais de 10 metros de altura. Isso torna-os praticamente invisíveis a partir do chão até que a folhagem comece a cair no outono.
- Ninho pequeno e redondo, junto a um telhado, alpendre ou sebe: provavelmente um ninho embrionário de primavera, ainda com uma só vespa lá dentro.
- Ninho grande, esférico ou em pêra, no topo de uma árvore alta, com abertura lateral e vaivém constante de vespas a entrar e sair.
- Zumbido intenso e concentrado num único ponto da copa de uma árvore, mesmo sem se ver o ninho com clareza — vale a pena olhar duas vezes antes de podar essa árvore.
- Restos de abelhas mortas ou de asas soltas junto a uma colmeia, sinal de que há atividade de caça próxima, entre outros indícios menos óbvios.
O que fazer — e o que não fazer — se encontrar um ninho
Não tente destruir um ninho de vespa-asiática sozinho. Ponto final. Mesmo que pareça pequeno e ao alcance de um cabo de vassoura, a colónia reage em bloco a qualquer perturbação, e a destruição incorreta do ninho — com água, fogo ou inseticidas comprados na loja de bricolagem — costuma resultar em picadas múltiplas para quem tenta e, pior ainda, na dispersão da colónia para vários ninhos secundários pela vizinhança.
A forma correta de agir é reportar o ninho através da plataforma STOPvespa do ICNF, em stopvespa.icnf.pt, onde basta preencher um formulário simples e anexar as fotografias tiradas à distância. Em alternativa, o contacto pode ser feito diretamente com o serviço municipal de proteção civil da sua câmara, que na maioria dos concelhos do Norte e Centro já tem equipas próprias — ou empresas certificadas — para remover ninhos em segurança. A remoção profissional é gratuita ou tem custo simbólico na generalidade dos municípios mais afetados; vale a pena confirmar junto da sua câmara antes de contratar uma empresa privada por conta própria.
O preço que as abelhas e os pomares estão a pagar
Este não é um problema apenas de quem tem colmeias. Uma colónia de vespa-asiática precisa de comer entre 700 gramas e um quilograma de abelhas por dia para se manter e crescer. O número parece pequeno até se multiplicar por dezenas de ninhos ativos na mesma região, ao mesmo tempo, durante meses seguidos. No Alto Minho, onde a espécie se instalou primeiro, os apicultores da APIMIL já fizeram as contas: prejuízos acumulados de cerca de seis milhões de euros em onze anos. Isso equivale a mais de meio milhão de euros por ano, só naquela região do país. A nível nacional, a Federação Nacional de Apicultores de Portugal (FNAP) estima que a produção de mel no Norte e Centro caiu mais de 35% nos últimos anos por causa da pressão da vespa-asiática. Colmeias que costumavam produzir 12 quilogramas de mel por ano rendem agora, em média, entre quatro e cinco.
Menos abelhas a trabalhar significa menos polinização — e isso chega diretamente à horta e ao pomar de quem nunca teve uma colmeia na vida. Há já relatos de pomares e vinhas no Norte com frutos danificados diretamente pela vespa, que também se alimenta de fruta madura quando a caça de abelhas escasseia. Se vive no Algarve ou no Baixo Alentejo, a pressão é hoje bastante menor e é possível que ainda não tenha visto uma única vespa-asiática no quintal — mas a espécie continua a alargar o território ano após ano, e aprender a reconhecê-la agora poupa confusões mais tarde.
Armadilhas: só valem a pena na época certa
É tentador pendurar uma garrafa de plástico com cerveja e açúcar assim que se vê a primeira vespa grande do verão, mas em julho isso costuma fazer mais mal do que bem. As armadilhas seletivas com isco açucarado funcionam para capturar rainhas fundadoras isoladas, e só têm sentido entre meados de fevereiro e o início de maio — depois disso, as rainhas já não saem à procura de comida sozinhas, ficam no ninho, e uma armadilha doce no quintal em pleno verão acaba por apanhar sobretudo abelhas e outros polinizadores, exatamente o que se quer proteger. Se ainda assim quiser colocar uma armadilha nesta época, use isco proteico — fígado de frango ou peixe, por exemplo — que atrai as vespas operárias sem ser tão atrativo para as abelhas.
Se for picado
O risco de uma picada de vespa-asiática não é, por si só, maior do que o de uma vespa comum, mas a reação de defesa em grupo perto de um ninho pode resultar em várias picadas de uma só vez. Lave a zona com água e sabão, aplique frio local — um saco de gelo envolto num pano, nunca gelo direto na pele — e observe se surgem sinais de reação alérgica mais séria: inchaço que se espalha para além do local da picada, dificuldade a respirar ou tonturas. Nesse caso, procure assistência médica de imediato; para a maioria das pessoas, uma picada isolada resolve-se em casa em poucas horas, com algum desconforto e nada mais.
Da próxima vez que vir aquele voo parado junto à colmeia do vizinho, já sabe o que está a observar. Tire a fotografia, recue devagar, reporte no STOPvespa — e deixe o resto para quem tem o equipamento certo para lá subir.