A primeira noite verdadeiramente fria do ano chega quase sempre mais cedo do que se espera — normalmente entre a última semana de setembro e os primeiros dias de outubro, quando o termómetro desce abaixo dos 12 graus ao final da tarde. É nesse momento que muita gente vai buscar a lenha, acende a lareira pela primeira vez desde a primavera e descobre, com o fumo a entrar pela sala em vez de subir pela chaminé, que ninguém tratou da limpeza. Setembro, e não novembro, é o mês certo para resolver isto, por uma razão simples: os varredores de chaminés em Portugal ficam com a agenda cheia a partir de meados de outubro, e marcar agora ainda dá para escolher hora sem pressa.
O creosoto é o verdadeiro problema, não a fuligem
Quem tem lareira ou recuperador de calor associa a limpeza da chaminé a fuligem preta e pouco mais — um incómodo estético, resolvido com uma escova. O risco real chama-se creosoto: uma substância negra e oleosa que se forma quando a madeira queima a temperaturas baixas ou está insuficientemente seca, e que se vai acumulando nas paredes internas da conduta em camadas sucessivas ao longo de vários invernos. Em quantidade suficiente, o creosoto é altamente inflamável, e um chamejo mais intenso dentro da lareira — por exemplo, ao queimar cartão ou lenha de resinosas em excesso — pode incendiá-lo dentro da própria chaminé. Um incêndio de chaminé destas características não é teórico: os bombeiros portugueses registam ocorrências deste tipo todos os invernos, sobretudo em casas com lareiras antigas ou pouco usadas, exactamente as que têm mais probabilidade de ter creosoto acumulado sem ninguém saber.
Como perceber se há acumulação
Um sinal simples, que qualquer pessoa consegue verificar sem ferramentas: aponte uma lanterna para dentro da conduta, a partir da lareira, e observe a superfície interior. Se estiver lisa e cinzenta-acastanhada, a situação está controlada. Se houver uma camada brilhante, escura e com aspecto de alcatrão — mesmo que fina — já há creosoto suficiente para justificar uma limpeza antes de voltar a acender. Cheiro intenso a fumo frio na sala, mesmo com a lareira apagada há dias, é outro indício a não ignorar.
Com que frequência limpar, e quando dá para adiar
A recomendação para quem usa lareira ou recuperador de calor de forma regular ao longo do inverno é uma limpeza por ano, feita antes da primeira utilização da estação. Para quem acende raramente — poucas vezes por mês, essencialmente em ocasiões pontuais — o intervalo pode alargar-se a cada dois anos, desde que a inspecção visual não mostre sinais de creosoto. Já as chaminés de cozinha e de exaustão de fogões a lenha para uso mais intenso pedem atenção mais espaçada apenas quando o uso é reduzido; em restaurantes e padarias tradicionais, por exemplo, a limpeza costuma ser anual ou mais frequente, precisamente pelo volume de queima. Vale a pena decidir com base no uso real da sua casa, não numa regra fixa — mas nunca ultrapasse os dois anos sem verificar.
Há quem prefira adiar para poupar os cerca de 70 a 80 euros que um serviço destes custa em média. Não vale a pena. O preço de uma limpeza de chaminé em Portugal ronda os 70€ a 83€ em orçamento médio, com um intervalo que pode ir dos 50€ aos 250€ consoante o tipo de conduta, o grau de acumulação e a acessibilidade do telhado — valores muito abaixo do que custa reparar uma chaminé danificada por um incêndio interno, sem falar dos danos à cobertura e à estrutura da casa à volta. Escolha um profissional certificado e peça sempre o certificado de conformidade, um documento com validade de um ano que atesta que a chaminé foi limpa e está em condições seguras de funcionamento — além de, em muitos casos, ser exigido pela seguradora se houver um sinistro relacionado com aquecimento.
Sinais de que a chaminé precisa de atenção antes do inverno
Além da inspecção com lanterna, há outros indícios a que vale a pena prestar atenção nas próximas semanas, antes que o frio chegue a sério:
- Manchas de fumo ou fuligem à volta da boca da lareira ou do recuperador, mesmo depois de limpar a superfície visível
- Ninhos de aves ou de outros animais na conduta — comuns em chaminés que ficaram sem uso durante o verão, e que bloqueiam a saída de fumo de forma perigosa
- Fumo que insiste em entrar na sala em vez de subir, principalmente nos primeiros minutos depois de acender
- Fendas visíveis na alvenaria exterior da chaminé, ao nível do telhado — um problema de estrutura, não de limpeza, que exige um técnico especializado e não um simples varredor
- E, já agora, o cheiro: se a sala cheira a fumo frio mesmo com a lareira fechada há semanas, isso quase sempre significa infiltração de ar pela conduta.
Não é preciso que todos estes sinais estejam presentes ao mesmo tempo. Um único indício — sobretudo o das manchas de fuligem persistentes — já é motivo suficiente para marcar a visita do varredor antes de acender pela primeira vez.
A lenha que se compra em setembro raramente está pronta para outubro
Aqui está o erro mais comum, e também o mais caro: comprar lenha em setembro ou outubro e queimá-la de imediato, na convicção de que "lenha é lenha". Não é. A madeira recém-cortada tem um teor de humidade que pode ultrapassar os 40%, e queimar lenha húmida é exactamente o que gera creosoto em excesso, além de produzir muito menos calor por queima e mais fumo denso. O ideal é lenha com secagem de pelo menos seis meses a um ano, com humidade abaixo dos 20% — um valor que se mede facilmente com um medidor de humidade para madeira, um instrumento barato e que qualquer casa com lareira devia ter.
Se já tem lenha guardada desde a primavera passada, a situação está resolvida. Se está a comprar agora, pergunte directamente ao fornecedor há quanto tempo a lenha foi cortada — e desconfie de quem não sabe responder. Prefira espécies como carvalho, azinheira ou sobreiro, que ardem mais devagar e com menos resina do que os pinheiros e outras resinosas, estas últimas mais indicadas para acender o lume do que para manter a combustão ao longo da noite.
Antes de acender pela primeira vez esta estação
Reserve uma tarde de fim-de-semana em setembro para tratar disto de uma vez, em vez de deixar para a véspera do primeiro frio:
- Marque a limpeza com um profissional certificado, com pelo menos duas a três semanas de antecedência — a partir de outubro a procura dispara
- Peça e guarde o certificado de conformidade, útil para o seguro e para futuras vendas da casa
- Verifique o estado das juntas e da chapa do recuperador de calor, se for o caso, e substitua vedantes gastos
- Confirme que a grelha ou tampa da chaminé no telhado não tem ninhos nem detritos
- Separe a lenha bem seca da que ainda precisa de mais alguns meses, e guarde-a num local coberto e ventilado
A lareira acesa numa noite de outono é, para muita gente, o momento que marca a mudança de estação dentro de casa. Vale a pena que essa noite comece com fumo a subir direito pela chaminé, e não com a sala cheia de fumo e as janelas todas abertas às dez da noite.