Às sete da manhã, antes de o calor apertar, o quintal do Miguel em Torres Vedras já está a zumbir. Não é o alarme do telemóvel — são as abelhas-carpinteiras a trabalhar a lavanda junto ao muro, enquanto duas borboletas brancas dão voltas à figueira. Três quintais mais abaixo, o vizinho tem a relva cortada rente, as sebes aparadas em linha reta e não se vê um único inseto. A diferença não está na sorte nem no tamanho do terreno — está nas escolhas de plantação que cada um fez ao longo dos anos.
Porque vale a pena convidar os polinizadores para o seu jardim
A maior parte das plantas com flor que se cultivam em Portugal — desde os tomateiros da horta até às amendoeiras e laranjeiras do quintal — depende, em maior ou menor grau, da visita de abelhas, borboletas, moscas-das-flores e outros insetos polinizadores. Sem eles, muitas árvores de fruto simplesmente não vingam: as flores abrem, mas nunca chegam a fruto, ou dão frutos pequenos e deformados por falta de polinização completa. Isto explica-se por gostos simples: um pessegueiro sem visitas suficientes pode perder metade da colheita potencial, mesmo com rega e adubo perfeitos.
Não é preciso transformar o quintal numa reserva natural nem abdicar de um relvado onde as crianças brincam. Um canto com plantas certas, um bebedouro raso e a ausência de pesticida já mudam o número de visitas por dia — e isso nota-se na produtividade da horta, na quantidade de fruta que cai das árvores e até no som que se ouve ao café da manhã na varanda.
Plantas melíferas que aguentam o verão português
A lavanda (Lavandula angustifolia) é a escolha mais fácil para quem está a começar: resiste bem à seca, floresce de maio a agosto e um vaso custa entre 4 e 9 euros no Leroy Merlin ou na Aki. O rosmaninho selvagem, tão comum nos matos do Alentejo, cumpre a mesma função e ainda melhor em solos pobres — vale a pena procurá-lo em viveiros que trabalhem com espécies autóctones, como alguns pontos de venda da rede Jardim das Sete Igrejas. Alecrim e tomilho, já presentes em muitas hortas para uso culinário, atraem abelhas solitárias assim que começam a florir.
A borragem é subestimada e merece mais espaço nas hortas caseiras: semeia-se em março, floresce em poucas semanas, ressemeia-se sozinha de ano para ano e as suas flores azuis são visitadas dezenas de vezes por hora em dias de sol. A malva silvestre, que muita gente arranca por nascer sozinha entre as couves, deveria ficar — é uma das plantas preferidas das abelhas domésticas na região de Lisboa. Evite as flores duplas ornamentais compradas em grandes superfícies, do tipo rosas ou dálias com pétalas em camadas: são vistosas, mas praticamente inúteis para os insetos, porque a multiplicação das pétalas aconteceu à custa dos órgãos reprodutivos e o néctar fica inacessível ou desaparece por completo.
Uma combinação que funciona no litoral e no interior
Para quem quer resultados sem complicar, a combinação lavanda + alecrim + borragem + malva cobre praticamente toda a estação quente com pouco trabalho de manutenção. Nenhuma destas plantas exige rega diária depois de estabelecida, o que poupa água numa altura em que muitos municípios já restringem o consumo em julho e agosto.
Quem só tem varanda também pode participar: uma jardineira de 60 centímetros com lavanda e tomilho num quinto andar funciona quase tão bem como um canteiro no quintal, porque as abelhas voam facilmente dois ou três quarteirões à procura de néctar. A diferença está em escolher vasos com bom volume de terra — abaixo de cinco litros, as raízes de plantas mediterrânicas como o rosmaninho sofrem no calor de agosto e a floração encurta.
Polinizadores nativos que a maioria das pessoas nunca notou
Quando se fala em abelhas, a imagem que vem à cabeça é sempre a colmeia com milhares de indivíduos e um apicultor de fato branco. Em Portugal existem, no entanto, centenas de espécies de abelhas solitárias — a abelha-mineira, a abelha-carpinteira e várias espécies do género Osmia entre elas — que vivem sozinhas, não produzem mel e raramente picam, porque não têm ninho coletivo para defender. São estas espécies solitárias, e não as abelhas domésticas, que fazem a maior parte do trabalho de polinização em jardins pequenos e hortas urbanas.
As moscas-das-flores (sirfídeos), fáceis de confundir com vespas pelo padrão amarelo e preto, merecem igual atenção: além de polinizarem, as suas larvas comem pulgões aos milhares, o que reduz a necessidade de qualquer tratamento contra estas pragas na horta. A Comissão Europeia lançou em 2018 a Iniciativa para os Polinizadores, precisamente porque o declínio destas espécies selvagens — mais do que o das abelhas domésticas geridas por apicultores — preocupa os cientistas que estudam a produção agrícola europeia.
Hotéis de insetos: comprar ou construir
Um hotel de insetos pronto, dos que se vendem no Leroy Merlin ou na Aki, ronda os 15 a 40 euros consoante o tamanho e os materiais. Serve sobretudo abelhas solitárias — que são a maioria das espécies de abelhas em Portugal, ao contrário do que a imagem da colmeia sugere — e não picam, porque não têm colónia nem mel para defender.
Construir um é mais barato e não exige ferramentas complicadas: uma caixa de madeira ou até uma caixa de fruta velha, preenchida com caules ocos de bambu cortados em segmentos de 10 a 15 centímetros, paus com furos feitos com berbequim e alguns pedaços de tijolo furado. A cortiça, tão disponível em Portugal, funciona particularmente bem como material de enchimento — retém pouca humidade e as abelhas solitárias adaptam-se bem a furos feitos diretamente nela. O hotel deve ficar virado a sul ou sueste, a uma altura de 1 a 1,5 metros, protegido de chuva direta e de vento forte, idealmente sob um beiral ou dentro de uma pequena cobertura.
Água, sombra e um canto ao natural
As abelhas bebem água, mas afogam-se facilmente em recipientes fundos. Um prato raso com pedras ou cacos de cerâmica a espreitar acima da água resolve o problema: os insetos pousam nas pedras e bebem sem risco. Troque a água a cada dois ou três dias no calor de julho e agosto, porque a água parada atrai mosquitos — o mesmo problema que já foi tratado num artigo anterior sobre proteção da família no quintal.
Deixar um canto do relvado por cortar durante três ou quatro semanas em maio e junho, antes do pico do calor, permite que trevos e outras flores espontâneas cresçam e alimentem os primeiros polinizadores da estação. Não é preciso abandonar o relvado todo — um metro quadrado junto a um muro ou por trás de um arbusto já faz diferença, e ninguém repara na estética do resto do jardim.
Erros comuns que afastam os polinizadores
Não existe atalho: pesticida é pesticida, mesmo quando o rótulo diz biológico.
Produtos à base de Bacillus thuringiensis, populares entre quem cultiva tomate e cria fama de "amigos do ambiente", matam lagartas indiscriminadamente — incluindo as lagartas de borboletas que se pretendia atrair na fase adulta. Se precisar de controlar pragas na horta, aplique o produto ao entardecer, quando a maioria dos polinizadores já recolheu, e evite pulverizar diretamente sobre plantas em flor. Cortar sebes e arbustos floridos a meio da época de floração é outro erro frequente: muita gente apara a buganvília ou o alecrim assim que a floração "começa a ficar desarrumada", cortando justamente a parte que estava a alimentar as abelhas há duas semanas.
Um calendário de floração para não deixar buracos
O objetivo é ter sempre algo em flor entre março e outubro, porque um jardim com flores em maio e nada em julho é como um restaurante que fecha na hora de almoço. Em março e abril, alecrim, rosmaninho e as primeiras borragens já estão ativos. De maio a julho entram lavanda, malva, tomilho e verbena-da-lua. Em agosto, quando quase tudo murcha com o calor, a buddleia — se tiver espaço e não estiver junto a uma zona protegida, onde pode espalhar-se de forma indesejada — continua a florir e a atrair borboletas mesmo nos dias mais secos. Setembro e outubro ficam a cargo de equinácea e de um segundo fluxo de floração da lavanda, se for podada corretamente em julho.
Um quintal assim não fica mais bonito da noite para o dia, e a diferença nos primeiros meses pode nem ser muito visível. Mas ao fim de uma ou duas estações, a horta dá mais tomates por planta, as árvores de fruto enchem melhor e há sempre qualquer coisa a zumbir junto à janela da cozinha às sete da manhã — o género de detalhe que só se nota quando falta.