
Levantas a tampa do compostor num fim de tarde de julho e um cheiro azedo sobe antes mesmo de veres o interior — e logo atrás dele, uma pequena nuvem de moscas da fruta que parecia ter aparecido do nada. Não fizeste nada de especialmente errado. O calor é que muda as regras do jogo. Em pleno verão português, com temperaturas que passam facilmente os 30°C à sombra em muitas zonas do país, a compostagem comporta-se de forma completamente diferente do que em outubro, e quem trata o compostor da mesma maneira o ano inteiro acaba quase sempre com o mesmo resultado: uma massa pastosa, cheia de bichos, com um cheiro que se sente do outro lado do quintal.
Porque é que o calor acelera tudo — e também estraga tudo
A decomposição é um processo biológico, feito por bactérias e fungos que se multiplicam mais depressa quando a temperatura sobe. Isto significa que, em julho e agosto, um monte de compostagem bem gerido pode transformar restos de cozinha em terra escura em metade do tempo que levaria no inverno — às vezes seis a oito semanas, em vez dos três ou quatro meses habituais. O problema é que essas mesmas bactérias também consomem oxigénio mais depressa, e quando o oxigénio acaba, entram em cena outros micróbios, os anaeróbios, que produzem aquele cheiro característico a ovo podre ou a amoníaco. É esse o momento em que a maioria das pessoas desiste do compostor e o esconde atrás do galinheiro. Um termómetro de compostagem simples, à venda por cerca de 12 a 18 euros em lojas como a Leroy Merlin ou a Aki, resolve boa parte da adivinhação: acima dos 60°C no centro do monte, está tudo a funcionar bem; perto dos 70°C, é hora de revolver e arejar antes que o processo comece a sufocar.
Onde arranjar "castanhos" quando não há folhas secas em julho
O equilíbrio entre material rico em azoto — os chamados "verdes": cascas de fruta, restos de legumes, borras de café — e material rico em carbono, os "castanhos", é a base de qualquer compostor que funcione. No outono há folhas secas por todo o lado; em julho, não há quase nenhuma, e é aqui que a maioria dos compostores urbanos falha. Guarda sempre à mão caixas de ovos rasgadas, cartão de embalagens sem fita adesiva nem tinta brilhante, rolos de papel higiénico vazios e aparas secas de podas anteriores. Sem esta reserva de castanhos, o compostor de verão transforma-se rapidamente numa papa de verdes em decomposição rápida — húmida, compacta, sem ar nenhum lá dentro.
Não vale a pena guardar apenas um punhado de cartão para "ir usando aos poucos". A recomendação séria é manter sempre um saco de trinta a quarenta litros de material castanho seco pronto a usar, porque no calor vais precisar dele com mais frequência do que imaginas — de preferência, junta uma camada de castanhos por cima de cada adição de restos de cozinha, não uma vez por semana.
Como evitar as moscas da fruta e o cheiro a podre
As moscas da fruta não aparecem por acaso. Chegam porque encontram restos orgânicos à superfície, expostos ao ar e ao cheiro que se liberta com o calor. Enterra sempre os restos de cozinha pelo menos dez centímetros abaixo da superfície do compostor, cobrindo-os de imediato com uma camada de material seco. Corta os pedaços maiores — cascas de melão, talos de couve, restos de melancia — em pedaços mais pequenos antes de os deitares lá dentro, porque quanto maior a superfície exposta, mais depressa as bactérias e os insetos conseguem chegar a eles.
O compostor não é um caixote do lixo com boa consciência.
A localização também pesa mais no verão do que em qualquer outra estação. Um compostor colocado a apanhar sol direto a tarde inteira pode facilmente ultrapassar os 45°C no interior, o que mata parte da fauna benéfica — minhocas, bichos-de-conta, larvas de mosca-soldado-negra — que ajuda a decompor tudo sem cheiro. O ideal é um local com sombra parcial, sobretudo depois do meio-dia; se o teu quintal não tem essa sombra em lado nenhum, uma alternativa razoável é um bokashi, um sistema fechado que fermenta os restos em vez de os compostar ao ar livre e que tolera muito melhor o sol direto de Lisboa ou de Faro em agosto.
Regar sem afogar: a diferença entre seco de mais e podre
Aqui está a parte contraintuitiva: no verão, o compostor seca com uma rapidez surpreendente, e um monte seco de mais praticamente para de decompor. Testa a humidade apertando um punhado de material com a mão — deve sair húmido como uma esponja bem torcida, sem pingar água entre os dedos. Se sair pó seco, rega; se sair água a escorrer, adiciona castanhos e revolve para deixar entrar ar. Regar o compostor duas a três vezes por semana em pleno julho não é exagero, é manutenção normal, sobretudo em compostores de plástico preto que aquecem muito mais depressa do que os de madeira ou de rede metálica.
Há dois sinais que costumam confundir quem está a começar. Uma camada branca e fina à superfície, parecida com bafo, é normalmente um fungo benéfico chamado actinomiceta e não é motivo de preocupação — faz parte do processo normal de decomposição em condições quentes e razoavelmente secas. Já um cheiro intenso a amoníaco, combinado com formigas em grande número, costuma indicar excesso de material verde húmido e falta de arejamento; nesse caso, revolve o monte de imediato e junta bastante material castanho seco, mesmo que isso signifique interromper o que estavas a fazer no quintal para tratar disso primeiro.
O que nunca deve ir para o compostor, ainda mais no calor
Alguns materiais que talvez toleres no inverno tornam-se um problema sério assim que as temperaturas sobem:
- Carne, peixe e laticínios — atraem roedores e moscas em horas, não em dias
- Óleos e molhos gordurosos, que impedem a passagem de ar e apodrecem sem controlo
- Plantas doentes ou com fungos visíveis, porque o calor não elimina os esporos como muita gente pensa — pelo contrário, ajuda-os a espalhar-se
- Papel plastificado ou com tinta brilhante, e fezes de cães ou gatos, que podem transportar parasitas resistentes ao processo doméstico
Esta lista não esgota tudo o que deve ficar de fora — cinzas de churrasqueira em grande quantidade e ervas daninhas já com sementes maduras também merecem cuidado —, mas cobre os erros mais comuns nesta altura do ano.
Compostor comprado ou feito em casa? A escolha que compensa no verão
Um compostor de plástico fechado, dos vendidos por 300 a 400 litros, custa normalmente entre 40 e 90 euros em lojas como a Leroy Merlin, a Aki ou a Worten, e tem a vantagem de manter os bichos e o cheiro contidos. Escolhe sempre um modelo com tampa e com fendas de ventilação laterais — os modelos totalmente fechados e sem ventilação, normalmente os mais baratos, sofrem muito mais no verão porque não deixam sair o excesso de humidade nem entrar ar suficiente. Vale também a pena verificar se a câmara municipal da tua zona tem programa de distribuição de compostores domésticos a preço reduzido; várias autarquias portuguesas, sobretudo na área da Lipor no Grande Porto, mantêm este tipo de apoio para famílias com quintal ou horta.
Quem tem espaço e jeito para bricolage pode construir um compostor de madeira ou de rede metálica por muito menos, com paletes recuperadas ou rede electrossoldada — mas nesse caso a exposição ao sol e a proteção contra chuva forte tornam-se responsabilidade tua, sem a margem de erro que um modelo comercial oferece. Existe ainda a opção do compostor rotativo, ou tumbler, uma espécie de tambor sobre um suporte que se roda com uma manivela; custa mais, entre 80 e 150 euros consoante a capacidade, mas em pleno verão a facilidade de arejar o conteúdo em segundos, sem pá nem esforço, pode ser exatamente o que falta a quem desiste do compostor por preguiça de o revolver com regularidade.
Quando e como usar o composto pronto na horta e nos vasos
Sabes que o composto está pronto quando deixa de ser possível identificar os restos originais: a textura fica escura, solta, com cheiro a terra de floresta, nunca a podre. Se ainda vês cascas de ovo inteiras ou pedaços de casca de fruta reconhecíveis, precisa de mais algumas semanas. Usa-o como cobertura de dois a três centímetros à volta das plantas da horta, evitando encostar diretamente ao caule, ou mistura-o com a terra dos vasos numa proporção de cerca de um quarto de composto para três quartos de substrato. Julho e agosto são também a altura certa para preparares composto extra a pensar nas sementeiras de outono — couves, alface de inverno, favas — que vão agradecer um solo já enriquecido quando chegar setembro.
Um compostor bem gerido no calor não cheira a lixo; cheira, na pior das hipóteses, a terra molhada depois de chover.