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Casa fresca sem ar condicionado: o que funciona mesmo no verão português

Casa fresca sem ar condicionado: o que funciona mesmo no verão português

Em julho, a diferença entre uma casa abafada e uma casa onde se consegue dormir raramente está no aparelho que se liga. Está no que se faz às oito da manhã e às oito da noite, e na ordem por que se faz. Quem vive num T2 virado a poente em Lisboa, no Alentejo ou no interior de Trás-os-Montes sabe que o termómetro lá fora marca 38 graus e que o ar condicionado, mesmo que exista, custa caro a rodar todo o dia. A boa notícia: há muito a fazer antes de chegar a esse ponto, e quase tudo é barato.

A regra das duas janelas de tempo

O calor entra em casa de duas formas: pelo ar quente que deixamos passar e pelo sol que bate nas superfícies. As duas combatem-se em horários opostos.

De manhã cedo, enquanto a rua ainda está fresca — entre as seis e as nove, conforme a região —, abra tudo de par em par. Janelas em lados opostos da casa, portas interiores escancaradas, para que se forme corrente. É nessa hora que se enche a casa de ar fresco que vai aguentar boa parte do dia. Por volta das dez, quando a temperatura exterior ultrapassa a interior, fecha-se tudo: janelas, estores, cortinas. A casa passa a funcionar como uma garrafa térmica.

Ao fim da tarde, quando lá fora volta a estar mais fresco do que cá dentro, abre-se de novo. Esta dança de abrir e fechar, repetida todos os dias, faz mais pela temperatura de uma casa do que qualquer truque isolado. Quem trabalha fora e não está em casa de manhã pode deixar os estores corridos antes de sair — a casa fica mais escura, mas chega ao fim do dia vários graus abaixo.

Travar o sol antes de ele entrar

Uma cortina escura por dentro do vidro já absorveu o calor do sol e vai libertá-lo para o quarto. Por isso o sombreamento que conta é o que está pelo lado de fora.

Os estores exteriores de réguas, tão comuns nos prédios portugueses, são a melhor defesa que muita gente já tem em casa e não aproveita. Mantidos a três quartos durante as horas de sol — deixando uma fresta para alguma luz — cortam o grosso da radiação. Para as varandas e janadas viradas a sul e a poente, um toldo ou uma vela de sombra resolve. No Leroy Merlin e no AKI encontram-se velas triangulares a partir de 15 a 25 euros e toldos de braço articulado entre 80 e 200 euros, conforme a largura.

Para quem aluga e não pode furar paredes, há a película solar refletora que se cola pelo interior do vidro. Um rolo para duas ou três janelas custa cerca de 20 a 40 euros e reduz sensivelmente o calor que atravessa o vidro, embora escureça um pouco a divisão. Nas janelas viradas a nascente, que só apanham sol de manhã, costuma chegar uma cortina de linho claro por fora do vidro, na varanda.

O telhado e a água-furtada

Quem vive no último andar ou numa moradia com sótão habitado conhece o problema: o telhado aquece como uma chapa e o calor desce. Se há um sótão por cima do teto, abrir as suas aberturas de ventilação à noite e mantê-las a arejar ajuda muito. Em moradias, pintar uma cobertura plana de cor clara, ou aplicar uma tinta refletora térmica, baixa a temperatura da laje vários graus nas horas de maior sol — uma obra pequena que se paga numa época de calor.

Ventiladores: usá-los com cabeça

Um ventilador não arrefece o ar, move-o. O que faz é ajudar o suor a evaporar da pele, e isso dá a sensação de estar dois ou três graus mais fresco. Daí que não faça sentido deixá-lo a trabalhar num quarto vazio — gasta sem arrefecer nada.

O truque que mais resultado dá é o ventilador de janela à noite. Colocado a apontar para fora numa janela do lado mais quente da casa, expulsa o ar quente acumulado; numa janela do lado fresco, com outro a puxar para dentro, cria-se uma travessia de ar que troca o ar da casa em minutos. Uma ventoinha de coluna decente custa entre 30 e 60 euros; uma de teto, instalada, ronda os 80 a 150 euros e é a que sai mais barata a longo prazo, porque consome pouco e serve o ano inteiro.

Há ainda o truque caseiro da tigela de gelo à frente da ventoinha. Funciona, mas só num raio de um metro e durante o tempo que o gelo demora a derreter. Para uma noite pontual de canícula, ajuda; como solução de verão, não.

O que aquece a casa por dentro

Boa parte do calor de uma casa em agosto vem de dentro. O forno a trabalhar uma hora ao almoço aquece a cozinha e tudo à volta durante a tarde inteira. Por isso, no pico do verão, faz sentido cozinhar de manhã ou ao fim do dia, passar para a placa, a panela de pressão ou a air fryer, que aquecem muito menos a divisão, e aproveitar para fazer refeições frias — gaspacho, saladas de massa, carnes assadas na véspera.

  • Desligar aparelhos da tomada em vez de os deixar em standby: o router, a televisão e os carregadores libertam um calorzinho constante que, somado, conta numa divisão fechada.
  • Trocar as últimas lâmpadas antigas por LED: além de gastarem uma fração da energia, quase não aquecem, ao contrário das halogéneas que se tornavam escaldantes.
  • Estender a roupa na rua ou na varanda, nunca dentro de casa no verão — uma máquina de roupa a secar num quarto lança humidade e calor que tornam a noite insuportável.

Plantas, água e o frescor que elas trazem

Uma varanda com vasos bem regados é mais fresca do que uma varanda de cimento nu, e não é impressão: a água que as plantas libertam arrefece o ar à volta. Trepadeiras como a glicínia ou a parreira sobre uma pérgula dão sombra viva à fachada e, ao contrário de um toldo, transpiram e refrescam. Para uma varanda virada a poente, um conjunto de vasos altos com plantas resistentes — buganvília, alecrim, oliveira-anã — cria uma barreira verde que corta o sol da tarde.

Dentro de casa, um chão de tijoleira ou de pedra lavado com a esfregona ao fim da tarde devolve uma sensação de frescura imediata, à moda antiga das casas alentejanas. É um gesto simples que as nossas avós faziam por uma razão prática, não por hábito.

E quando mesmo assim aperta

Há dias — e o Algarve e o interior conhecem-nos bem — em que passa dos 40 graus e nenhuma destas medidas chega para dormir descansado. Aí, se houver ar condicionado, o uso inteligente faz toda a diferença: ligá-lo só ao quarto onde se dorme, de portas fechadas, programado para 26 graus em vez de 21. Cada grau a menos no termóstato representa mais consumo, e a diferença entre 26 e 21 graus na fatura, ao fim de um mês de calor, conta-se em dezenas de euros.

Para quem não tem aparelho fixo, um climatizador evaporativo — aquele que arrefece o ar passando-o por água — custa entre 60 e 120 euros e funciona bem no interior seco do país, embora renda pouco no litoral húmido, onde o ar já está carregado de humidade. Vale a pena perceber em que clima se vive antes de comprar.

No fundo, a casa fresca de verão não nasce de um aparelho. Nasce de fechar o estor à hora certa, de cozinhar antes do calor apertar e de deixar a corrente da noite fazer o seu trabalho enquanto se dorme.