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Ressementeira do Relvado em Outubro: Como Escarificar, Arejar e Semear Antes do Inverno

Manchas de terra, feltro seco e pisoteio do verão: outubro é a altura certa para reparar o relvado. Veja como escarificar, arejar, escolher a semente e regar nas três semanas decisivas.

Ressementeira do Relvado em Outubro: Como Escarificar, Arejar e Semear Antes do Inverno

Passe a mão pelo relvado em princípios de outubro e vai sentir duas coisas: uma camada esponjosa de folha seca por baixo do verde que ainda sobrou e, onde o cão faz a ronda, manchas de terra à vista. O verão deixa sempre esta herança — calor a mais, rega irregular, pisoteio, uma semana de férias sem ninguém a olhar pelo jardim. A tentação é esperar pela primavera para resolver tudo de uma vez, e é um erro que se paga. Agora o solo ainda guarda o calor de agosto, as manhãs já refrescam e, em muitos anos, a chuva volta a tempo de aliviar a rega. Quem semeia neste momento chega a março com as raízes instaladas. Quem espera passa o inverno com o relvado esburacado e as ervas daninhas a ocupar os buracos.

Antes de comprar semente: que tipo de relvado tem?

Há duas famílias de relva, e semear uma na época errada é deitar dinheiro à terra. As de estação fria — festuca-alta, azevém (ray-grass) perene, festuca-vermelha, poa — crescem sobretudo no outono e na primavera e mantêm-se verdes durante o inverno. As de estação quente, como a grama (Cynodon dactylon) e a zoysia, adoram o calor do Alentejo e do Algarve, mas entram em dormência e ficam cor de palha de novembro a março. Para as primeiras, setembro e outubro são a melhor época de sementeira em Portugal; para as segundas, o outono e o inverno são a pior, e a sementeira faz-se na primavera, quando o solo aquece.

E se não sabe o que tem? Pense no inverno passado: se a relva se manteve verde, ainda que a crescer devagar, é de estação fria e pode avançar; se ficou amarela e seca até à primavera, é de estação quente, e nesse caso deixe o saco de semente na prateleira.

Porque é que outubro funciona, e até quando

As gramíneas de estação fria germinam melhor com temperaturas amenas, na ordem dos 15 a 22 °C no ar, e com o solo ainda morno, entre os 10 e os 18 °C. Em outubro, essa combinação é comum no litoral e no centro: a semente germina depressa, a relva nova tem semanas de crescimento tranquilo antes do frio e quase não compete com as ervas daninhas de verão, que já abrandaram. A humidade do outono reduz ainda a necessidade de regar, o que na primavera, muitas vezes mais seca, dá muito mais trabalho. Um termómetro de solo custa, grosso modo, uma dezena de euros e dispensa adivinhação: espete-o alguns centímetros no chão, à sombra, e espere pela leitura certa.

A janela não é eterna. No interior norte e centro, onde as primeiras geadas chegam mais cedo, não deixe a tarefa para o fim do mês: a relva nova precisa de algumas semanas de crescimento antes de apanhar frio a sério. No litoral e no sul ainda há margem nas primeiras semanas de outubro, mas nada que justifique esperar por novembro.

Escarificar primeiro: tirar o feltro antes de semear

Semear por cima do feltro — essa camada castanha de folha morta, raízes e restos que se acumula entre a relva e o solo — é a forma mais comum de desperdiçar semente. Quando a camada passa de cerca de 1 cm, a água e o adubo ficam retidos à superfície, e a semente que lá cair germina em cima de matéria seca sem chegar à terra. Os sinais são fáceis de ver: o relvado parece uma esponja quando se pisa, a água de rega escorre em vez de entrar, vê-se uma faixa castanha grossa à altura da base das folhas e o musgo avança nas zonas de sombra. Com um ou mais destes sinais, escarifique. Corte primeiro o relvado bem curto, com o solo seco (em terra molhada o escarificador acumula e rasga), e faça uma primeira passagem leve; só aprofunde se o feltro continuar a sair em quantidade. Cruze as passagens em ângulo reto e recolha tudo com um ancinho de folhas. O resultado será um relvado feio, quase careca em alguns sítios, e isso é normal: a recuperação costuma demorar entre duas e seis semanas, e ao arrancar o feltro ficam ainda expostos ovos de lagartas e lesmas, que o frio se encarrega de eliminar sem química nenhuma.

Num relvado pequeno basta um ancinho de relvado manual, à custa de braço; para a maioria dos jardins de moradia, o escarificador elétrico é a melhor opção: tem profundidade ajustável, recolhe os restos num cesto e encontra-se na gama de jardim de lojas de bricolage como a Leroy Merlin. E não exagere: escarificar a fundo um relvado que quase não tem feltro arranca relva saudável, deixa terra nua para as ervas daninhas e pode agravar o musgo em vez de o curar. Uma ou duas vezes por ano, uma passagem ligeira na primavera e outra mais cuidada agora, é o ritmo que a maioria dos relvados aguenta.

Arejar a terra que ficou dura como cimento

Nas zonas de passagem, no canto onde o cão faz a ronda, no sítio onde esteve o mobiliário de jardim, o solo compacta, as raízes não respiram e a água não infiltra. Fure a terra com um garfo de jardim ou com um aerador de espigões, a 8–10 cm de profundidade, e repita nas faixas mais duras. Faz-se depois de escarificar e antes de semear.

Que semente comprar

Melhor opção: uma mistura igual à que já tem, com as espécies e as percentagens escritas no rótulo. Evite sacos que só dizem «relva resistente» e não indicam a composição. Se o relvado sofreu com o calor ou com o pisoteio, esta é a altura de mudar de mistura, e a escolha depende da exposição:

  • Pleno sol e verões quentes: cerca de 80% de festuca-alta e 20% de azevém perene, uma combinação com boa tolerância à seca.
  • Semi-sombra no norte e centro: a festuca-vermelha lidera, por exemplo 60% de festuca-vermelha, 20% de festuca-alta e 20% de azevém perene.
  • Crianças e animais a correr todos os dias: 60% de azevém perene com 40% de festuca-alta aguenta o desgaste e arranca depressa.
  • Sombra quase total, com menos de três horas de sol direto, é outra história: nenhuma gramínea resulta a longo prazo, e aí vale mais pensar em hera ou ajuga.
SementeDose para sementeiraCobertura com terra fina
Azevém perene30–40 g/m²0,5–1 cm
Festuca-alta35–45 g/m²0,5–1 cm
Festuca-vermelha20–30 g/m²cerca de 0,5 cm
Mistura comercialconforme o rótulo, tipicamente 30–40 g/m²0,5–1 cm

Estas são doses para manchas nuas. Num relvado apenas rarefeito, procure no saco a indicação de ressementeira, que costuma ser mais baixa.

Semear sem desperdiçar semente

Divida a semente em duas metades: espalhe a primeira num sentido e a segunda em sentido cruzado, para não deixar faixas vazias. Cubra depois com 0,5 a 1 cm de terra fina ou terriço e pise ou passe um rolo leve, para que a semente fique bem encostada à terra. Evite os dias de vento e a véspera de aguaceiros fortes, que arrastam a semente.

Atenção a um conflito que passa despercebido. Alguns calendários de manutenção sugerem um herbicida pré-emergente em setembro, mas a maioria destes produtos impede a germinação de qualquer semente, incluindo a de relva. Se aplicou um, espere cerca de seis semanas antes de semear; se vai semear agora, não o aplique.

Adubar: pouco azoto, mais potássio

Em outubro a relva não precisa de crescer muito, precisa de raízes e de resistência ao frio. Por isso a última adubação do ano, que a Stihl situa entre meados de setembro e meados de outubro, deve ser um adubo de outono, com o mínimo de azoto e um teor alto de potássio; um calendário português de manutenção cita como exemplo uma fórmula do tipo 6-5-20. Os guias não são unânimes, e outros preferem um adubo equilibrado de libertação lenta. Em qualquer dos casos, evite o adubo de primavera, rico em azoto, que empurra um crescimento tenro que a primeira geada castiga.

As três semanas que decidem o resultado

Regue pouco e muitas vezes. O objetivo é manter a superfície húmida sem a encharcar, uma ou duas vezes por dia, de madrugada ou ao princípio da manhã, durante duas a três semanas, porque as raízes novas ficam junto à superfície e secam depressa, enquanto uma rega pesada escorre antes de a semente a aproveitar. Nos dias de chuva, desligue a rega. O azevém costuma germinar em cinco a dez dias; a festuca é mais lenta e pede mais paciência, por isso não dê por perdida uma mancha que ao fim de uma semana ainda parece vazia.

O corte é onde mais gente estraga o trabalho. Só passe o cortador quando a relva nova ultrapassar os 5 ou 6 cm, com a lâmina bem afiada, e tire no máximo um terço da altura de cada vez, até chegar aos cerca de 3,5 cm que se recomendam para um relvado de jardim. Lâminas rombas arrancam plântulas e abrem feridas por onde entram doenças. Daí em diante, em outubro e novembro, o ritmo abranda para um corte de dez em dez ou de catorze em catorze dias. As folhas das árvores também contam: deixadas sobre a relva nova, tapam a luz e podem matá-la. Recolha-as com um ancinho leve, que não arranque as plântulas, e desvie o cão das manchas semeadas até a relva fechar.

Um fim de semana, por ordem

  1. Sexta-feira: veja a previsão, escolha um fim de semana sem chuva forte e compre a semente, o terriço e o adubo de outono.
  2. Sábado de manhã: corte o relvado curto, com a terra seca, e escarifique.
  3. Sábado à tarde: recolha os restos e fure com o garfo as faixas mais duras.
  4. Domingo: semeie, cubra com terriço, pise ou passe o rolo, adube e regue de leve.

A partir de segunda-feira a rega passa a ser a rotina e o cortador fica na garagem até a relva nova passar dos cinco centímetros.

O que esperar até março

Não espere um relvado de campo de golfe em novembro. Com os dias curtos, a relva de estação fria cresce devagar, a semente mais tardia vai engrossando durante o inverno e o grande efeito vê-se em março e abril, quando as manchas fecham e o relvado arranca já com raízes feitas. Se nessa altura ainda restarem falhas, a primavera é a segunda janela de sementeira, entre março e abril, e o que sobrou do saco de outubro serve para isso, desde que fique bem fechado, num sítio seco e fresco.